Dramaturgia

Diário de um Louco, conto de Nicolai Gogol

com adaptação de André Morais

HOJE (1)

Aconteceu-me hoje uma aventura insólita. Levantei-me bastante tarde e quando a criada me trouxe as botas limpas, perguntei-lhe que horas eram. Ao ouvir que já passava muito das dez, comecei a vestir-me com mais pressa. Confesso que não tinha a menor vontade de ir à repartição, pois já sabia com que cara feia o nosso chefe de seção me receberia. Há muito tempo que ele vive dizendo-me: – “Então, irmão, que tens? Que confusão é essa na tua cabeça? De vez em quando te agitas como quem ficou asfixiado pelo vapor da estufa, e atrapalhas o serviço de tal maneira que nem o próprio Satanás o desembaralharia, pões minúscula no título, não colocas nem data nem número!” Maldito palerma! Decerto está com inveja de mim, porque o meu lugar é no gabinete do diretor, onde aparo as penas de S. Ex.a. Numa palavra, eu não teria ido à repartição se não fosse a esperança de lá encontrar o caixa e, talvez, extorquir daquele judeu alguma coisa por conta do próximo ordenado. Vesti um velho capote e apanhei o guarda-chuva, pois chovia torrencialmente. Nas ruas não se via ninguém, a não ser umas camponesas que cobriam a cabeça com as saias, uns comerciantes sob guarda-chuvas, e alguns cocheiros.  De nobres, apenas um funcionário trocava pernas. Avistei-o numa encruzilhada e logo disse com os meus botões: – “Bonito, meu caro: em vez de ir à repartição, ficas a andar atrás da pessoa que vai à tua frente, olhando-lhe as perninhas finas.” Belo patife o nosso irmão funcionário! Palavra de honra, um oficial não lhe leva vantagem: basta passar uma mulher de chapéu, e ele a aborda inevitavelmente. Enquanto meditava assim, vi um carro aproximar-se da loja perto da qual me encontrava. Reconheci-o logo: era o carro do nosso diretor. – “Mas ele nada tem que fazer nesta loja – pensei. – Realmente: é a filha dele.” Encolhi-me rente à parede. Um lacaio abriu a portinhola, e ela saltou do carro feito um passarinho. Como olhava à direita e à esquerda, como levantava as sobrancelhas e as pálpebras… Deus do Céu! Senti-me perdido, sim, inteiramente perdido. Foi então para isso que ela resolveu sair em dia tão chuvoso? Digam-me agora que as mulheres não são loucas por todos aqueles trapos. Ela não me reconheceu, pois eu mesmo fiz tudo para esconder o rosto; estava com um capote bastante surrado e, além disso, de feição antiga. A cachorrinha dela, como não teve tempo de acompanhá-la até à loja, ficou na rua. Conheço essa cachorra. Chamam-na Medji. Nem decorreu um minuto, e de repente ouvi uma vozinha fina: – Bom dia, Medji. Vejam só! Quem será mesmo? Olhei em redor, e vi aproximarem-se duas damas sob o mesmo guarda-chuva, uma velhinha, a outra moça. Mal haviam passado, ouvi perto de mim a mesma voz: – Que modos feios, Medji! Que diabo! Vi que Medji e outro cachorro, vindo atrás das senhoras, se andavam farejando um ao outro. – “Estarei completamente bêbedo? – perguntei a mim mesmo. – Mas isto me acontece raras vezes.” Então vi a própria Medji pronunciar estas palavras: – Não, Fidel, estás enganada. Au, au! Eu tenho estado – au, au! – muito doente. Que cadela esquisita! Fiquei bastante surpreendido, devo confessá-lo, ao ouvi-la exprimir-se em linguagem humana. Mas depois, ao refletir direitinho no caso, deixei de estranhá-lo. Com efeito, já se deram no mundo muitos fatos parecidos. Dizem que na Grã-Bretanha um peixe veio a terra e pronunciou duas palavras numa língua tão estranha que os sábios, por muito que a procurem determinar, há três anos, ainda não chegaram a nenhum resultado. Li também nos jornais acerca de duas vacas que entraram numa loja e pediram para si uma libra de chá. Mas surpreendi-me outra vez ao ouvir Medji acrescentar: – Eu te escrevi, Fidel. Provavelmente não te entregaram a minha carta. Nunca em minha vida tinha ouvido dizer que os cachorros sabiam escrever. É verdade que de algum tempo para cá tenho ouvido e visto coisas que nunca ninguém ouviu nem viu. – “Bem – disse comigo mesmo – vamos atrás dessa cachorra para saber o que ela é e o que pensa.” Pus-me a seguir as duas damas. Elas atravessaram a Rua da Ervilha, entraram na dos Burgueses, dali passaram à dos Marinheiros, e finalmente se detiveram diante de um casarão junto à ponte.”Conheço esta casa – disse comigo mesmo. – É uma casa de pensão.” Que coincidência! Quanta gente não mora ali: quantos cozinheiros, quantos hóspedes e quantos irmãos funcionários vivendo uns em cima dos outros como cachorros! Ali mora também um amigo meu que sabe tocar trombeta. As senhoras subiram ao quinto andar. – “Está certo – pensei – desta vez não subo, mas anoto o endereço e não deixarei de utilizá-lo na primeira ocasião.”

HOJE (2)

Por volta da uma e meia, verificou-se um acontecimento que nenhuma pena saberia descrever. Abriu-se a porta! Pensando eu que fosse o diretor levantei-me de um pulo com toda papelada. Mas não, foi ela, ela mesma. Santos do céu, como estava vestida, toda de branco feito um cisne. Que esplendor. E que olhares, só mesmo o sol, por Deus, só mesmo o sol. Cumprimentou-me e perguntou: “Papai ainda não esteve aqui?” Ai de mim, que voz, um canário sem tirar nem pôr. Excelência… Não ordene a minha execução, mas se fizeres questão de minha morte, mate-me logo com sua mãozinha de filha de general! Mas com os diabos, a minha língua não se desemperrava e eu disse apenas: Ainda não. Ela olhou para mim, para os livros, e deixou cair o lenço. Ergui-me de um salto! O maldito soalho fez-me escorregar e quase descolei o nariz. Mas acabei por me equilibrar, apanhando o lenço. Deus do céu, que lenço! Finíssimo, de batista, âmbar de verdade! Exalava-se dele um legitimo perfume, de general. Agradeceu-me, sorriu com um movimento imperceptível de seus doces labiozinhos e saiu.

HOJE (3)

O chefe de seção deixou-me louco de raiva. Quando cheguei à repartição, mandou-me chamar ao seu gabinete e disse-me: – “Explica-me, por favor, o que estás fazendo.” – O que estou fazendo? Mas não estou fazendo coisa alguma – respondi. – “Ora essa! Vê lá, já passaste dos quarenta, é tempo de criares juízo. Que é que estás pensando?

Imaginas que não sei das tuas tratantadas? Então estás fazendo a corte à filha do diretor? Vamos, enxerga-te, vê bem o que és. Um zero, nada mais. Não tens nem meio copeque de teu! Ainda por cima, olha a tua cara no espelho, para ver se acabas com essas idéias.”

Compreendo, sim, compreendo muito bem o motivo por que está irritado comigo. Inveja-me talvez por ter percebido algum sinal de simpatia dirigido a mim e não a ele. Pois eu cuspo-lhe na cara!Grande coisa um conselheiro da corte! Ostenta uma corrente de ouro no relógio, manda fazer botas de trinta rublos – pois bem, o Diabo o leve! Serei eu, porventura, da arraia-miúda, algum filho de alfaiate ou de suboficial? Sou nobre, e posso também ser promovido. Deixa estar, amigo! Eu também posso chegar a coronel e, se Deus quiser, a um pouco mais. Posso ter também um dia a minha reputaçãozinha, maior que a tua. Que é que te faz imaginar que não há, além de ti, nenhuma pessoa decente? Dá-me um fraque talhado na moda, deixa-me amarrar a gravata como a tua está amarrada – e nem me chegarás aos pés. Falta-me dinheiro, eis a minha infelicidade.

HOJE (4)

Ontem, de repente fui como que iluminado por um clarão: lembrei-me da conversa dos dois cães que eu surpreendera. – “Muito bem, agora vou saber tudo. É preciso apoderar-me da correspondência trocada entre esses dois cachorros ordinários. Por ela provavelmente ficarei sabendo alguma coisa.” Confesso que já cheguei a chamar Medji e falar-lhe assim: – Olha, Medji, nós agora .estamos aqui a sós; se quiseres, vou até fechar a porta para que ninguém nos possa ver. Conta-me tudo o que sabes a respeito de tua senhora, dize-me como ela é. Juro-te que não o revelarei a ninguém.

Mas a esperta cachorrinha encolheu o rabo, contraiu-se toda e saiu do quarto caladinha, como se nada tivesse ouvido. Suspeito há muito tempo que o cachorro é mais inteligente do que o homem. Estou até convencido de que sabe falar, apenas tem uma espécie de teimosia. É um político extraordinário: observa tudo, todos os passos do homem. Não, custe o que custar, hei de ir amanhã à pensão, interrogarei Fidel, e, se for possível, interceptarei todas as cartas que Medji lhe escreveu.

HOJE (5)

Às duas da tarde pus-me a caminho com a intenção de visitar Fidel e de interrogá-la. Chegando ao quinto andar, toquei a campainha. Apa- receu uma criadinha de aparência não de todo má, de rosto sardento. Reconheci-a: era a mocinha que tinha estado com a velha. Corou ao ver-me, e eu compreendi de que se tratava. – Tu precisas, pombinha, é de um marido.- Boa Tarde. – Que é que o senhor deseja? – perguntou-me. – Preciso falar com a vossa cachorrinha. Mas que criada tola! Logo vi como era estúpida. Ao mesmo tempo a cachorra acorreu latindo. Fiz menção de agarrá-la, mas o bicho ordinário quase que me abo- canhou o nariz. Nesse meio tempo, percebi a um dos cantos uma cesta de esparto. Pois é disso justamente que eu preciso! Aproximei-me dela, revolvi a palha na caixa de madeira e com extraordinário prazer, retirei da mesma um pacote de papeizinhos. Vendo isto, a danada da cachorra mordeu-me primeiro a barriga da perna; depois, ao farejar que eu levava os papéis, pôs-se a ganir, a fazer-me festa, mas eu lhe disse: – Não, minha pombinha, até logo. E fui-me embora correndo. A criadinha deve ter-me tomado por maluco, tal o medo que lhe causei. Chegando a casa, quis-me entregar imediatamente ao trabalho de decifrar as cartas, pois à luz das velas vejo bastante mal. A criada, porém, tinha-se lembrado de lavar o soalho. Essas finlandesas idiotas lembram-se de limpeza sempre no pior momento. Diante disso fui dar uma voltinha a meditar o acontecido. Agora, de vez, acabarei por saber tudo; todos os pensamentos, todas as molas, tudo hei de descobrir. Essas cartas hão de me revelar tudo. Os cachorros são uma raça inteligente, conhecem todas as relações políticas, e, assim, sem dúvida tudo estará aqui dentro, o retrato e todos os negócios do homem.

Deverá também haver algo a respeito daquela que… mas – psiu!…

ONTEM (1)

Pois bem, vejamos. A carta é bastante legível. Embora escrita em letra humana, tem algo de canino. Leiamos:

“Querida Fidel, parece-me que partilhar com outrem os pensamentos, sentmentos e impressões é uma das maiores felicidades do mundo. Eu digo isso por experiência, embora nunca tenha corrido mundo além do portão de nossa casa. Será que a minha vida não é feliz? Minha senhorinha, a quem seu papai chama Sophie, ama-me loucamente.” Ai de mim, mas psiu! “O paizinho dela acaricia-me também freqüentemente. Bebo chá e café com creme. Ah, ma chére, devo dizer-te que não acho absolutamente nenhum gosto nos grandes ossos ruídos que se encontram na cozinha, a mim só me interessam ossos de passarinho de caça, e estes mesmos só quando ninguém lhes chupou o tutano.”

O diabo que entenda isso, que tolice! Falar em tal coisa como se não houvesse assunto mais interessante! Vamos ver na outra página. Talvez lá se encontre algo de mais sensato:

“Ontem Sophie estava sentada à sua mesinha e cosia alguma coisa. Eu estav olhando pela janela, pois gosto de examinar os transeuntes. De repente entra o criado e anuncia um Sr. – “Mande-o entrar” – exclamou Sophie. E correu a abraçar-me: – “Ah, Medji, Medji! se soubesses quem é! Um rapaz moreno, um fidalgo da corte. E que olhos! Pretos e luminosos como o fogo.” Não sei, ma chère, o que ela encontra no seu fidalgo, que está assim tão enlevada por ele…”

A mim me parece que a coisa não deve ser tanto assim. Não é possível que ela esteja tão enlevada por ele. Mas vejamos:

“Se esse fidalgo lhe agradou, daqui a pouco a veremos gostar até daquele funcionário que está sentado no gabinete de papai. Ah, ma chère, se soubesses que cara horrorosa! Direitinho uma tartaruga num saco…”

Quem será esse funcionário?

” Está sempre sentado, aparando as penas, os cabelos que tem na cabeça parecem palha, Papai o manda a toda parte como a um criado…”

Dir-se-ia que a ordinária da cadela se refere a mim. Mas onde é que eu tenho cabelos como palha?

“Ao olhar para ele, Sophie não pode absolutamente conter o riso.”

Estás mentindo, cadela danada! Que língua infame! Como se eu não soubesse de onde provêm todos esses truques: provêm do chefe de seção. Vê-se que o homem me votou um ódio de morte e agora me prejudica no que pode… Com os diabos! Não posso ler mais… Por toda parte aparece um homem da corte ou um general. Por toda parte, tudo o que há de melhor no mundo é para fidalgos da corte ou generais. Encontra-se um pequeno tesouro, pensa-se atingi-lo com a mão – mas vem um general, e o arrebata. O Diabo os leve. Eu também desejaria tornar-me um general. Não era para obter a mão dela e o resto, não: queria ser general apenas para ver como eles me cortejariam, como me fariam toda espécie de cerimônias e salamaleques, e para depois lhes dizer que escarro em ambos. O Diabo os leve, a esses idiotas.

Que importa que ele seja um fidalgo da corte? Isto é apenas uma dignidade, não é nenhum sinal visível que se possa tocar com o dedo. O fato de ele ser fidalgo da corte não lhe acrescenta mais um olho à fronte. Também o nariz dele não é de ouro, é como o meu nariz ou como o de qualquer outra pessoa. Serve para cheirar e não para comer, para espirrar e não para tossir. Mais de uma vez procurei já elucidar de onde provêm todas essas diferenças. Por que eu sou conselheiro-titular? Que quer dizer ser eu conselheiro-titular? Talvez eu seja algum conde ou general, parecendo apenas conselheiro-titular. Talvez eu mesmo ignore quem sou. Veja-se quantos exemplos disso temos em toda a história: aparece um homem simples, nem sequer um nobre, mas um burguês qualquer ou até um camponês, e de um momento para outro se descobre que ele é algum magnata ou barão, ou coisa parecida. Quando de um simples mujique pode sair alguma coisa dessa espécie, o que não poderá sair de um nobre? De repente, por exemplo, eu apareço em uniforme de general, com dragonas no ombro esquerdo, dragonas no ombro direito, uma fita azul de um ombro ao outro — pois então? Em que tom me falará a minha bela senhorinha? Que dirá o pai dela, nosso diretor? Oh, ele é ambiciosíssimo; sem a menor dúvida, é maçom, por mais que procure fingir isto ou aquilo; percebi rapidamente que ele é maçom, porque, ao dar a mão a alguém, estende apenas dois dedos. Será que eu não posso neste mesmo instante ser nomeado general-governador ou intendente, ou algo de parecido? Gostaria de saber por que sou conselheiro-titular. Por que justamente conselheiro-titular?

ANTI-ONTEM

Toda a manhã de hoje li jornais. Na Espanha estão acontecendo coisas estranhas. Nem consegui analisá-las bem. Escreve-se que o trono está vago e os graúdos se encontram em grande embaraço quanto à eleição de um sucessor; daí provém grande indignação. Acho isso extremamente esquisito. Como pode um trono estar vago? Diz-se que ele deverá ser ocupado por certa doña. Mas uma dona não pode ocupar um trono, de maneira nenhuma. Um trono deve ser ocupado por um rei. Sim, diz-se – mas não há rei. É impossível que não haja rei. Não pode haver Estado sem rei. Há um rei; apenas, ele se encontra em lugar desconhecido.

ANO 3000, 43 DE ABRIL

O dia de hoje é particularmente solene. A Espanha já tem rei. Ele foi encontrado, afinal. Este rei sou eu. Somente hoje é que o soube. Confesso, foi como se de repente um relâmpago me houvesse iluminado. Não compreendo como pude pensar e crer que era conse-lheiro-título. Como me pôde entrar na cabeça idéia tão extravagante? Felizmente ninguém se lembrou de me pôr numa casa de loucos. Tudo se esclareceu aos meus olhos. Agora vejo tudo claramente, como na palma da mão. Até hoje, não sei como, tudo diante de mim estava como que envolvido em uma espécie de névoa, e tudo isto, penso eu, vem do fato de que a gente imagina que o cérebro humano se encontra na cabeça, pois absolutamente não… Ele é trazido pelo vento que vem do mar. Para começar, anunciei a minha criada quem eu sou. Ao ouvir que tinha diante de si o rei da Espanha, bateu com uma das mãos na outra e por um triz não morreu de susto. Tolinha! nunca tinha visto o rei da Espanha. Mas eu procurei tranqüilizá-la e com palavras bondosas assegurei-a do meu favor, acrescentando que não estava nada aborrecido por ela às vezes me haver limpado mal as botas.

Não fui à repartição. Diabo leve a repartição! Não, amigos, não me pegareis mais: não copiarei mais os vossos papéis sujos!

86 DE MARTOUBRO, ENTRE DIA E NOITE

Apareceu hoje aqui o executor para me dizer que eu devia voltar à repartição, aonde não comparecia havia três semanas.

Fui, pois,” à repartição, por brincadeira.

O chefe de seção pensava que eu ia cumprimentá-lo e pedir-lhe desculpa, mas encarei-o com indiferença, nem muito aborrecido nem muito benévolo. Sentei-me à minha mesa como se não tivesse visto ninguém. Olhei para toda aquela canalha administrativa e pensei: – “Se soubessem quem está sentado entre vocês! Deus do Céu! Seria uma confusão! O próprio chefe de seção se inclinaria tão profundamente como se inclina agora perante o diretor. O que me pareceu mais engraçado que tudo foi eles me empurrarem uns papéis para eu assiná-los. Pensavam que eu ia pôr o nome ao pé da folha: Fulano de Tal, chefe de mesa… Que esperança! Lancei no lugar principal, lá onde o diretor da repartição costuma pôr a sua firma: Fernando VIII, Rei da Espanha. Era de ver que silêncio reverente se fez no mesmo instante. Fiz apenas um sinal com a mão, dizendo: – Dispenso qualquer homenagem de meus súditos! E saí. Fui direito ao gabinete do diretor. Ele não es- tava. No primeiro momento o lacaio não me quis deixar entrar, mas eu lhe disse umas coisas que o deixaram desarmado. Dirigi-me de chofre ao toucador. Ela estava sentada diante do espelho. Ergueu-se de um salto e fi- tou-me com espanto. Eu, porém, não lhe disse que era o rei da Espanha; limitei-me a comunicar-lhe que a espe- rava uma felicidade tão grande que ela nem podia ima- ginar, e que, apesar das intrigas dos inimigos, acaba- ríamos por nos unir. Foi tudo o que eu disse, e ela saiu.

MADRID, 30 DE FEVEREIRO

Eis-me, afinal, na Espanha. Tudo aconteceu tão depressa que mal pude voltar a mim. Hoje de manhã apareceram lá em casa os emissários espanhóis e me fizeram subir a um carro. A rapidez com que isto se verificou foi extraordinária. Andamos tão depressa que dentro de meia hora chegamos à fronteira espanhola.

Estranho país a Espanha: ao entrarmos na primeira sala, encontrei uma multidão de pessoas de cabeça rapada. Adivinhei logo que deviam ser os grandes de Espanha, ou então soldados, pois são estes que usam cabeça rapada. Pareceram-me sumamente estranhas as maneiras do chanceler do governo, o qual me pegou pela mão, arrastou-me a um pequeno quarto e disse: – Senta-te aqui, e se te tratares de rei Fernando, hei de tirar-te essa idéia da cabeça cem pancadas. Sabendo que aquilo era apenas uma provocação, respondi negativamente, ao que o chanceler me deu duas bastonadas nas costas, tão dolorosas que eu quase gritei. Mas contive-me, lembrado de que se tratava de uma cerimônia de cavalaria, um ato de investidura. Com efeito, na Espanha conservam-se até hoje as tradi- ções da cavalaria. Deixado sozinho, resolvi consagrar-me a assuntos do governo. Descobri que a China e a Espanha formam um único país e só por ignorância são consideradas dois Estados diferentes. Aconselho a todos que escrevam num papel Espanha; sairá China.

Estou, porém, preocupadíssimo com um acontecimento que deverá verificar-se amanhã. Às sete horas da manhã produzir-se-á um fenômeno dos mais singulares: a Terra há de sentar-se na Lua. O famoso químico inglês Wellington trata disso. Confesso que sinto profunda inquietação ao imaginar a excessiva maciez e a fragilidade da Lua. Ela é feita regularmente em Hamburgo, e fazem-na muito mal. É estranho que a Inglaterra não tenha reparado neste fato. Quem a faz é um tanoeiro coxo e, ao que parece, louco, que não tem a menor idéia do que seja a Lua. Assim, põe-lhe uma corda com piche e óleo vegetal, e eis por que há em toda a Terra um tal fedor que a gente tem de tapar o nariz. Pela mesma razão a Lua é um globo tão pouco sólido que nela não pode viver gente de maneira alguma; quem vive lá são apenas os narizes. Nós justamente não vemos os próprios narizes porque eles se encontram todos na Lua. Ao refletir que a substância da Terra é muito pesada e pode reduzir os nossos narizes a farinha, fui presa de tamanha inquietação que, calçando meias e sapatos, me dirigi sem demora à sala do Conselho de Estado para mandar a polícia proibir que a Terra se sentasse na Lua. Os grandes de cabeça rapada, convocados por mim em grande número à Sala do Conselho de Estado, mostraram-se muito inteligentes, e quando eu lhes disse: – “Meus senhores, salvemos a Lua, pois a Terra quer sentar-se nela!” – imediatamente correram a executar minha real vontade. Muitos deles treparam à parede para apanhar a Lua, quando entrou o grande-chanceler. Ao vê-lo, todos deitaram a correr e se dispersaram. Só eu fiquei ali, como rei. Mas, com viva surpresa minha, o chanceler esbordoou-me e mandou-me voltar ao meu quarto. Tamanha influência conservam na Espanha as tradições nacionais.

AGNUS DEI

Não posso compreender até agora que terra é a Espanha. Os hábitos nacionais e a etiqueta da Corte são sobremodo esquisitos. Não compreendo, não compreendo, decididamente não compreendo nada. Hoje raparam-me a cabeça, apesar de eu ter gritado com todas as forças que não me queria tornar monge. Nem me lembro mais do que fiz quando começaram a gotejar-me água fria na cabeça. Nunca tinha sentido dor tão infernal. Estava na iminência de enlouquecer, a tal ponto que só a custo me dominaram. Não posso absolutamente compreender o que significa essa estranha cerimônia. É uma cerimônia estúpida, absurda, e não compreendo a estupidez dos reis que não a aboliram. Considerando bem as coisas, pergunto a mim mesmo se não caí nas garras da Inquisição e se o homem que eu tornei por grande-chanceler não é o próprio Grande Inquisidor. Mas não entendo absolutamente como possa um rei ser submetido à Inquisição.

Data nenhuma, foi um dia sem data.

Não tenho forças para agüentar mais. Meu Deus, o que fazem eles comigo? Derramam-me na cabeça água fria, não me dão a menor importância, não me vêem, não me escutam. Que mal lhes fiz? Por que me estão atormentando? O que é que eles querem desta pobre criatura? O que lhes posso dar eu não tenho nada. As minhas forças estão-se acabando, arde-me a cabeça. Tudo está rodando em torno de mim. Salvem-me! Tirem-me daqui! Dêem-me uma troika com cavalos tão velozes como a tempestade. Senta-te, meu cocheiro, repicai, meus guizos, arrebatai-me, meus cavalos, levai-me para longe desta terra, mais longe, mais longe ainda, para que eu não veja nada mais. Eis que o céu se desdobra ante os meus olhos, com uma estrelinha brilhando ao longe. Não é a minha casa que azuleja ali? Não é minha mãe que está sentada à janela? Mãezinha, salva o teu pobre filho! Derrama-lhe lágrimas sobre a cabecinha doente. Olha como o torturam! Aperta ao peito o teu pobre órfão! Ele não tem mais lugar na Terra…

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