Críticas

Diário de um louco Altimar Pimentel

 

     Gratifica-nos constatar haver o teatro paraibano alcançado nos últimos anos os mais altos níveis de toda a sua história. Desnecessário destacar aqueles espetáculos mais representativos, alguns com longevidade dificilmente atingida mesmo por encenações do Sul do País. Mas, considere-se sobretudo o sucesso de crítica e a quantidade de prêmios acumulados em festivais os mais diversos a atestar a qualidade do nosso teatro.

     Sobejam prêmios em concursos de dramaturgia como também em festivais é longa a lista de premiação dos espetáculos, da iluminação, cenografia, figurinos, atores e atrizes em testemunho vívido do alto nível do teatro paraibano.

     Em nenhum outro momento a arte teatral paraibana logrou tal expressividade quer na dramaturgia, quer na encenação.

     Exemplo mais recente da alta qualidade do nosso teatro é o espetáculo Diário de um louco, adaptação de André Morais do conto homônimo de Gogol, com direção de Jorge Bweres e André Morais e  interpretação deste último e música de Marcílio Onofre, Samuel Correia e Wilson Guerreiro.

     Foi para mim, integrante do júri do Festival de Teatro de Guaramiranga, uma gratificante surpresa assistir o espetáculo paraibano. Deixei-me enlear pelo andamento do espetáculo como os demais membros do júri. Os comentários após a apresentação foram os mais desvanecedores, elogiosos em todos os sentidos e nas minúcias observadas. Nenhuma observação negativa. A cada elogio mais me alegrava, mesmo tendo consciência de minha posição como jurado, sem permitir a parcialidade de meu voto.

     Naquele momento, para mim, julgava-se o teatro paraibano em um espetáculo limpo, competente, criativo, com linguagem cênica moderna, com figurino adequado, cenário despojado, onde nada é supérfluo, e uma interpretação sublimadora.

     Da surpresa inicial passei à análise dos detalhes. O cuidado meticuloso e criativo como o espetáculo havia sido construído por Jorge Bweres e André Morais revelava íntima cumpliciade entre o primeiro e o segundo também ator único. A música sublinhava a ação dramática com competência exemplar. A iluminação precisa acompanhava os estágios emocionais do intérprete…

     Esta mesma sensação tomou-me ao rever o espetáculo no Teatro Santa Roza. Fiquei preso a cada movimento, a cada fala do ator e ainda mais gostei do seu trabalho competente, em tempo correto, comedido, despojado de exageros.

     Já havia visto a adaptação de “As Pelejas de Ojuara” de Nei Leandro por Jorge Bweres, mas agora tinha diante de mim novo trabalho, como repassado por um agudo senso crítico e muita sensibilidade.

     Menor não fora a minha admiração por André Morais na criação do personagem do monólogo, forma teatral das mais difíceis.

     Vi-o prender a platéia e conduzi-la em silêncio total por todo espetáculo, com uma suavidade, leveza e plasticidade a denotar um seguro domínio do palco e da arte do Ator.

     É um monólogo dramático, trágico, narrado com segurança e criatividade, resultando leve, tão leve como sai do teatro a alma de cada espectador.

     Uma lição de teatro para se pensar e repensar, em sua grandeza magnífica pela correção e consciência da Arte do Teatro.

     Esta montagem de Diário de um louco engrandece o teatro paraibano.

Altimar Pimentel é escritor, dramaturgo e pesquisador da cultura popular.   

Quando o mundo não nos cabe mais

por Ricardo Oliveira

Esperava no hall do Santa Roza e, com alguns minutos de atraso, foi indicada a entrada lateral para o espetáculo. Nunca visitei o palco do teatro (apenas o do Paulo Pontes) e a experiência de entrar por ali, me fez, logo de cara esquecer o teatro. Um homem – vestindo capote escuro, gravata vermelha, camisa branca, calças combinando com o capote e bota de cano curto – esperáva-nos, olhando atenciosamente para aqueles que adentravam e se aconchegavam da chuva leve que caia lá fora.

As luzes se apagam, acendem depois de curta pausa, e o mesmo homem então começa a conversar conosco. Conta sobre certo dia em que vai ao trabalho como de costume, cheio de considerações sobre seus superiores, afirmando toda sua insatisfação pelo cargo que exerce. Pelo seu modo de vestir e falar, pelos fatos narrados, entramos no século XIX acompanhados pelo tom pretensioso do personagem. Ele fala mal do companheiro que encontra na rua, fala mal até do seu chefe.

Encontra, ao chegar na repartição onde trabalha, a filha do diretor. Extremamente encantado, torce por um simples olhar que traga atenção para si. A frustração do trabalho agora também é frustração amorosa e o máximo que consegue é descobrir que a cadela da moça pode falar. A cadelinha conversa com outro cachorro e relata algo sobre ter enviado uma carta. O nosso homem da repartição finalmente repara o quão estranho é o cachorro falar ou a notícia recente de que duas vacas entraram numa loja e fizeram um pedido.
Diário de um Louco, peça de André Morais e Jorge Bweres, baseada no conto homônimo de Nikolai Gogol, estréia em João Pessoa depois de viajar por diferentes estados no Brasil e trazer consigo alguns prêmios. Depois de longa espera (resultando em extremo cuidado nos detalhes), finalmente o público da capital pode adentrar no mundo do realismo russo de Gogol e na interpretação visceral de André Morais.

A peça investe na fuga do clichê do palco italiano para trazer uma aproximação maior ao espectador. Assistimos ao espetáculo em cima do palco, bem próximos de André. Vemos o suor, vemos os detalhes da roupa… ele fala bem de perto, olhando em nossos olhos. E nesse bem-de-perto, é que encontramos a loucura do personagem. Nos identificamos de cara com alguém que vive o que todos vivemos: dificuldade de relacionamento, frustração amorosa. E podemos ir mais além: nos identificamos porque, assim como o personagem anônimo que temos à nossa frente, narrando seus dias mais recentes, imaginamos em excesso o que o outro está pensando sobre tudo que nos cerca, sobre nós mesmos.

E nesse imaginar, nessa construção infinita que pode nos levar a diferentes lugares, imagens e referências, aos poucos suspendemos os símbolos dessa ‘vida-real’. A mala e o guarda-chuva sendo pendurados no infinito é dos símbolos mais ricos que já vi num palco (e eu não perdia por esperar mais).
A trilha sonora, produzida pelo grupo Compomus (vanguardista na UFPB, na cidade?), é de uma sutileza perfeita à peça (também premiada). Ela não se expõe como mais importante que o texto ou ato-cênico, não é meramente ilustrativa. Parece mais ser uma representação ideal da mente do personagem: notas agudas de um piano que, às vezes, semi-tona propositalmente: metáfora da loucura que vemos no palco – nada tem de lugar-comum, é construída a partir das pequenas “semi-tonadas” daquela vida.

O homem então descobre que pode ser além do simples consultor titular na repartição. Quem sabe…general, quem sabe…diretor? Descobre que a Espanha está sem rei. Por que não, general, diretor? Por que não, rei da Espanha?
Usando então o cenário (enormes tecidos com escritos à mão, representando o diário citado no título) como manto real e seu relógio como coroa, nosso personagem se auto-proclama Rei da Espanha. Agora sim, tem nome; nome de rei espanhol: Fernando VIII, Rei da Espanha (perdão se erro a numeração, a memória falhou).

Tudo já está suspenso. André Morais é aquele homem durante 50 minutos. Aquele homem é Fernando VIII hoje, ontem ou anteontem – não sabemos. Tudo já está suspenso, exceto o tempo. Por fim, um relógio é pendurado e já não sabemos quanto tempo passou, quanto tempo ainda durará. Sabemos somente que, quando o mundo não nos cabe mais, criamos outro.

Ricardo Oliveira é jornalista, idealizador do projeto multimídia Diversitá.

Um instigante diário cênico da loucura

Grupo Lavoura traz de volta aos palcos da Cidade, hoje e amanhã, texto de Nicolai Gogol

por Henrique França, Jornal O Norte

Quando os gritos irados de um espectador que saiu em pleno espetáculo se misturaram à voz do ator no monólogo “Diário de Um Louco”, há pouco mais de dois meses, um momento desconcertante e mágico invadiu ouvidos e olhares atentos de quem assistia à apresentação daquela última noite de temporada, em João Pessoa. Mágico pela força da arte sobre o espectador em cólera e desconcertante por nos deixar à mercê da mesma carga emocional, aquela foi uma experiência inesquecível. Somente hoje e amanhã, a montagem do Grupo Lavoura sobre texto do russo Nicolai Gogol volta aos palcos da Capital, dessa vez no Teatro Paulo Pontes, às 20h. Eis uma nova oportunidade para rir das loucuras interiores e engolir em seco a sanidade velada que cada um de nós carrega consigo.

Importante ressaltar que este não e um espetáculo qualquer. Sobre o palco, ator, objetos cênicos e público – uma média de 60 pessoas por sessão – dividem o mesmo espaço. Não há cortinas que se abrem para o início do espetáculo, mas existem painéis em pano que se descortinam do teto ao chão com frases que o “louco” em cena por vezes vocifera, por vezes sussurra. O texto, escrito em 1830, é tão contemporâneo quanto a própria loucura. Tudo gira em torno das desventuras de um funcionário público apaixonado pela filha do chefe. Ignorado e oprimido, o personagem de Gogol cria em torno de si um universo imaginário onde sonhos e desejos podem fluir de forma dramática, irônica e quase infantil.

André Morais, o único ator – mas não único louco! – em cena, consegue magnetizar o público em gestos sutis, olhares desconcertantes, sorrisos tristes que só a insanidade proporciona. Para se vestir tão adequadamente ao personagem, Morais fez laboratório dentro do Complexo Juliano Moreira, onde diários são entoados pelos corredores e escritos nas mentes incompreendidas de centenas de pacientes, todos os dias. “Como ator me vejo com um enorme brinquedo em que posso mexer, abrir, vasculhar, como uma criança que acredita na ilusão. Vejo-me nele, sinto, brinco, me frustro, me apego, aconchego, sinto pena (dele e de mim). Me sinto privilegiado em exercer um ofício que mexe tanto com o ser humano que sou”, declara o ator.

É o ser humano em desarmonia que provoca tantas reações – mesmo que não externadas – no público que vai ao espetáculo. Nada ali, das roupas e acessórios às luzes e trilha sonora, é tão forte quanto o universo psíquico tratado com tanta nudez, beleza e poesia. Mas tudo nessa montagem contribuiu para o enlevo do espectador aos limites da insanidade. Não se assuste se, em meio ao espetáculo, você se pegar acompanhando a fala do “louco” escrita nos longos panos que compõem o cenário.

Tecnicamente falando, “Diário de Um Louco” viajou por diversos festivais do Brasil e foi premiado como Melhor Espetáculo nas mostras do Espírito Santo, em 2005, e no último Festival de Teatro de Guaramiranga/CE. A direção de Jorge Bweres é certeira e firme, como esse arquiteto das artes. E a música original foi composta por integrantes do Grupo Compomus da UFPB. Pode-se dizer que teremos, hoje e amanhã, uma nova oportunidade cênica para instigar loucos e sãos interiores – ou simplesmente reuni-los num mesmo momento cênico. Vale a pena.

   

Diário de um Louco no Palco Giratório

Por Lau Siqueira

Encenado por André Morais e dirigido por Jorge Bweres, o monólogo Diário de um louco vai percorrer 48 cidades brasileiras, do Rio Grande do Sul ao interior da Amazônia. O grupo paraibano Lavoura foi um dos selecionados pelo projeto Palco Giratório, criado pelo Departamento Nacional SESC, com o objetivo de difundir as artes cênicas no Brasil. O outro espetáculo é Silêncio Total, com o palhaço Chuchu, criação do também paraibano, ator Luiz Carlos Vasconcelos.

Em Diário de um Louco podemos perceber a transtemporalidade de um texto clássico. Nikolai Vassilievitch Gogol, nascido em 1809 teve uma infância abastada, mas tornou-se um modesto funcionário público na fase adulta. Talvez esse tenha sido o fator invisível a transformá-lo no introdutor do realismo na literatura russa. No encontro do teatro com a literatura em Diário de um Louco, percebemos a atualidade de um texto datado de 1830 e encenado para um público que, supostamente, passou por uma radical mudança de costumes. A tradução desse mistério é que faz de uma obra um clássico.

O texto fala dos sonhos e das desesperanças de um funcionário público apaixonado pela filha do chefe. O impacto ferino da desigualdade social sobre os sentimentos desse personagem começam a impulsioná-lo para um enorme abalo emocional. Uma tristeza e um sentimento de impotência capaz de dimensioná-lo dentro de uma abordagem da loucura, sem estereótipos, na sua forma mais crua, mas ao mesmo tempo reveladora de uma imensa expressão de humanidade. A loucura aparece, então, como ponto de partida para o abandono de uma existência marcada pelo sentimento de impotência diante do estabelecido. O personagem cria para si um trono e uma coroa, na tentativa de superação das suas impossibilidades. A configuração da loucura na temática do espetáculo é de tamanha realidade que, segundo Jorge Bweres, em uma das apresentações uma pessoa teve um surto esquizofrênico na platéia.

Reconheço um grande ator quando percebo a sua capacidade de transgredir a própria identidade na criação de um estilo. A capacidade de introduzir-se na construção de um personagem que relata a agonia do homem comum e seus sentimentos, diante dos muros supostamente intransponíveis da desigualdade social. Em Diário de um Louco, André Morais soube realizar esse traçado, com uma interpretação de absoluto equilíbrio entre circunstância original do texto e a sua transcendência para esses tempos inaugurais do século XXI. Depois da declaração de Jorge acerca do surto esquizofrênico em uma das apresentações, compreendi melhor a reação de duas jovens sentadas no chão da primeira fila que riam freneticamente nos momentos de maior densidade do texto. Isso me fez crer que se trata de um espetáculo do qual não saímos impunes. Tamanha é a capacidade de envolvimento com todos os elementos do espetáculo, criada pelos artistas. Tudo amarrado sutilmente com uma trilha sonora muito bem acolhida pela concepção geral do espetáculo.

Os diretores de teatro experimentam a noção mais acabada de poder absoluto. Mas, seria mesmo necessário exercer este poder com autoritarismo e de forma personalista? Jorge Bweres nos mostra que não. Ele deixa sua marca no espetáculo exatamente por exercitar o oposto. Construiu um estilo delicadamente absoluto. Soube conjugar a imensa capacidade interpretativa de André Morais, com o que eu chamei de transtemporalidade do texto. Sua presença, no entanto, paira sobre cada cena. Sobre um cenário que impressiona pela capacidade de introduzir os personagens ocultos do monólogo, ou numa iluminação que contracena o tempo todo com os inúmeros elementos colocados em cena (ou fora dela). São os detalhes que fazem de Jorge Bweres um diretor diferenciado. Parte dele a provocação para um altíssimo grau de interação com a platéia. Reafirmo a impressão de Altimar Pimentel: “o cuidado meticuloso e criativo como o espetáculo havia sido construído por Jorge Bweres e André Morais revelava íntima cumplicidade entre o primeiro e o segundo também ator único”. O espetáculo é de uma unidade impressionante! Tudo no lugar. Tudo meticulosamente cuidado. Daí o sucesso que tem alcançado por onde se apresenta.

Agora o grupo Lavoura irá percorrer o país. Do extremo norte ao extremo sul. Certamente que tamanho percurso vai exigir do grupo uma capacidade de resistência que precisaria ser transformada em cadernos de viagem. E assim será. Jorge e André criaram um blog para que pudéssemos acompanhar à distância o traçado das emoções vivenciadas com os mais diferentes públicos deste país. Assim, você saberá quando o espetáculo estiver por perto e poderá tirar suas próprias impressões acerca do melhor teatro brasileiro contemporâneo. Um teatro que pulsa pelo Nordeste inteiro e que tem na Paraíba um dos seus principais vetores. Acompanhe pelo blog http://www.teatrolavoura.blogspot.com/ a aventura do grupo Lavoura nos palcos brasileiros.

Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside atualmente em João Pessoa-PB. Publicou quatro livros de poemas, participou de algumas antologias, entre elas “Na virada do século – poesia de invenção no Brasil”, publica anualmente seus poemas no Livro da Tribo e mantém o blog Poesia Sim (www.poesia-sim-poesia.blogspot.com). E-mail: lausiqueira@gmail.com

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